O bolo-rei que atravessou séculos e voltou a conquistar Setúbal
Entre tradição nacional e memória local, o bolo-rei continua a marcar o Natal português. Em Setúbal, uma receita histórica ganhou nova vida sem perder a alma.
Há sabores que resistem ao tempo e histórias que se contam à mesa. O bolo-rei é um desses símbolos que define o Natal em Portugal, mantendo-se presença quase obrigatória nas celebrações familiares e no Dia de Reis. Mais do que um doce sazonal, tornou-se um elemento identitário da cultura alimentar portuguesa, associado à partilha, à celebração e à continuidade das tradições.
A receita chegou ao país no século XIX, inspirada no Gâteau des Rois francês, mas rapidamente ganhou identidade própria. A massa rica e aromática, coberta de frutos secos e frutas cristalizadas, consolidou um perfil muito português. A forma circular, que evoca a coroa dos Reis Magos, reforçou o simbolismo do bolo, durante décadas acompanhado por uma fava e um pequeno brinde no interior. A tradição ditava que quem encontrasse a fava ficaria responsável por comprar o bolo no ano seguinte, enquanto o brinde era sinal de sorte. Apesar de estas práticas terem sido abandonadas por razões legais e de segurança alimentar, o ritual permanece vivo na memória coletiva.
Mesmo alvo de críticas, sobretudo pelas frutas cristalizadas, o bolo-rei continua a ser um dos produtos mais procurados na época natalícia. A versão clássica mantém-se como a preferida, apesar do crescimento de alternativas como o bolo-rainha ou variações com chocolate, pensadas para responder a novos gostos sem romper totalmente com a tradição.
Em Setúbal, o bolo-rei ganhou uma relevância especial através da Pastelaria Abrantes, fundada em 1922 e durante décadas instalada na Rua Dr. Vasconcelos, 38 a 40, na baixa de Setúbal. A casa tornou-se uma referência incontornável da doçaria local, criando uma relação afetiva profunda com várias gerações de setubalenses. O encerramento do espaço, em julho de 2022, poucos meses antes de completar cem anos, representou o fim de um local histórico da cidade, mas não apagou a importância da sua receita.
Essa herança foi recentemente recuperada pelo pasteleiro Nuno Gil, que decidiu recriar o bolo-rei da Abrantes com respeito pela base original, introduzindo um elemento distintivo da região. A massa de inspiração brioche mantém-se, rica e aromática, mas integra moscatel da Península de Setúbal, acrescentado à aguardente tradicional. O resultado é um bolo de massa mais composta, pensado para melhorar com o passar dos dias e conservar-se em boas condições durante mais tempo.
Mais do que uma recriação, esta recuperação surge como um gesto de preservação do património gastronómico local. Para muitos setubalenses, o bolo-rei não é apenas um doce natalício, mas uma referência emocional ligada à infância, às idas à baixa da cidade e às tradições familiares que se repetem ano após ano.
Entre a tradição nacional e a identidade regional, o bolo-rei continua a provar que o Natal em Portugal se constrói tanto de sabores como de memórias, mantendo-se como um símbolo que resiste ao tempo e continua a unir gerações à volta da mesa.






