Natal fora da foto incendeia Assembleia Municipal de Palmela
A ausência de cenários natalícios em fotografias escolares no Pinhal Novo desencadeou um debate político intenso em Palmela, expondo divisões profundas sobre tradição, inclusão e identidade cultural.
O tema do Natal entrou no centro da discussão política local após uma recomendação apresentada pelo Chega na Assembleia Municipal de Palmela, motivada pela utilização de fundos neutros nas fotografias escolares de uma escola da freguesia do Pinhal Novo. O assunto gerou um dos debates mais participados da sessão, com posições claramente antagónicas entre as bancadas.
A recomendação teve origem numa notícia divulgada pelo Diário do Distrito, segundo a qual a escola teria optado por eliminar referências natalícias nas fotografias para garantir maior inclusão num contexto de diversidade cultural e religiosa. Para o Chega, a decisão representa um afastamento das tradições culturais e religiosas portuguesas e um sinal de perda de identidade.
Na sua intervenção, o partido acusou a escola de ceder a uma lógica de relativização cultural, defendendo que o Natal é um pilar da cultura nacional. O deputado alertou para aquilo que considera ser um fenómeno crescente em vários países europeus, onde as celebrações natalícias estariam a ser desvalorizadas, sublinhando que a escola pública deve transmitir valores culturais às novas gerações.
Do lado do Partido Socialista, a resposta surgiu com tom crítico. António Godinho, professor na escola em causa, classificou a polémica como “um não assunto”, garantindo que as fotografias escolares não celebram qualquer festividade e servem apenas como registo individual para as famílias. O docente assegurou que a escola assinalou a quadra natalícia mediante exposições, murais, atividades pedagógicas, mensagens solidárias e presépios realizados pelos alunos de Educação Moral e Religiosa Católica.
O socialista sublinhou ainda que a escola é reconhecida pelas boas práticas de inclusão e participação em projetos europeus, considerando que a controvérsia lançou uma suspeita injusta sobre professores e direção, esclarecendo que a opção pelo fundo neutro teve apenas em conta a diversidade dos alunos.
A CDU também rejeitou a recomendação, considerando que a situação foi amplificada de forma excessiva. Álvaro Amaro reconheceu falhas na comunicação da escola, mas frisou que a alternância de temas nas fotografias escolares é comum em muitas escolas do país e não significa apagar tradições. O deputado destacou Palmela como um concelho tolerante e intercultural, onde a convivência entre diferentes crenças não implica esconder símbolos culturais.
Pela bancada do PSD/CDS, Carlos Vitorino reconheceu a importância das tradições cristãs na identidade portuguesa e europeia, considerando legítima a preocupação expressa. Ainda assim, levantou dúvidas quanto à forma, lembrando que as recomendações não são votadas e questionando a legitimidade da Assembleia Municipal para intervir na gestão das escolas, competência dos conselhos gerais.
Já na fase final do debate, o Chega voltou a insistir no simbolismo religioso do Natal, defendendo a presença de presépios nas escolas e no espaço público como expressão identitária.
O presidente da Assembleia Municipal encerrou o ponto esclarecendo que, nos termos do regimento, a recomendação não seria votada, sendo apenas remetida às entidades competentes. O debate acabou por ultrapassar a questão das fotografias e transformou-se numa reflexão mais ampla sobre identidade cultural, inclusão e o papel da escola pública numa sociedade cada vez mais diversa.






